Retrato
Você já deve ter ido a um lugar de grande circulação de
pessoas como praças, shopping, locais turísticos, etc e se perguntado: mas onde
está a banca de revistas que estava aqui? E bem. Elas não foram pra lugar
algum. As bancas de revistas estão sumindo! Infelizmente. Essa é a triste
realidade. E para você que gosta de frequentar esses locais que trazem
impressos diversos com diversos tipos de conteúdo a preços acessíveis, só lhe resta
o conteúdo da internet por meio do seu smartphone... Peraí! Mas que história é
essa?
Vamos conversar um pouco sobre como essa triste realidade
se construiu e onde ela pode nos levar segundo o que tenho escutado pelas
bancas aqui na ilha de São Luís.
Vocês devem estar familiarizados que banca de revistas são
pontos de venda que revendem impressos. São pontos de venda físico de estrutura
barata e leve pra que possam ser deslocados caso necessário. Conforme
legislação do município de São Luís, bancas de revista PESQUISAR.
Usam modelo de consignação como negócio onde ficam com parte do valor de capa
dos impressos efetivamente vendidos e devolvem os encalhes. Há um consenso de
que a primeira banca tenha surgido no ano de 1860 intento de um imigrante
italiano Carmine Labanca (que deu origem ao nome banca). De lá pra cá, tem
desempenhado papel de difusor cultural por meio de leitura, tal atividade nobre
o fez ser presente em todas as partes do mundo.
Estourou, em 2018, uma crise sem tamanho na maior editora
do país, Editora Abril. Fruto de péssimas escolhas nos negócios, a empresa
entrou em grande crise com pedido falência. Como a mesma detinha o quase
monopólio absoluto da distribuição de revistas no país, prejudicou toda uma
cadeia de negócios. Com tudo isso, revistas pararam de chegar as bancas e houve
um calote geral em toda a cadeia, prejudicando até outras editoras que usavam a
rede de distribuição da Abril. A crise do monopólio egoísta e criminoso dos
Civita (família dona da Editora Abril) foi o estopim da crise nas bancas.
Embelezar a área central da cidade de São Luís exigia o
fim das cortinas de ferro (cortina de ferro em referência as bancas)! Talvez
esse tenha sido o lema que o poder público usou para, de forma indiscriminada,
retirar as bancas do centro da cidade de seus locais habituais a fim de
“revitalizar” o centro da cidade. Locais esses que as bancas ocupavam há
décadas promovendo sua atividade de difusor cultural. Durante as obras, foram
jogadas de escanteio, em ruas com pouca movimentação e sem garantia de que
pudessem retornar aos seus locais de origem após finalizada as obras. Somada a
crise na distribuição, muitas delas não resistiram e faliram, sobrando carcaças
enferrujando com o tempo. Diversas reportagens registraram e denunciaram tal
processo. O poder público agiu de forma promover o fim das bancas, como numa
espécie de projeto, quando deveria se fazer o contrário!
O mercado editorial estava e está experimentando as
possibilidades que a internet oferece. E daí, tem surgido formas distintas e
diversas de adquirir, apreciar e publicar impressos, gerando assim
possibilidades que eram impensáveis tempos atrás. Quem é que não fica
maravilhado de poder comprar impressos sem sair de casa, ou achar aquela edição
que faltava, completando sua coleção, ou poder financiar aquele trabalho dos sonhos
de seu autor(a) predileto(a)? E mais. Quem é que não se sente maravilhado em
poder publicar sua tão desejada obra pra que o público aprecie? Isso tudo muito
me entusiasma. Mas nem só de flores vive essa interação. Apesar de meu
entusiasmo, na prática, temos o e-commerce e ele tem se tornado uma das
pás-de-cal nos pontos de vendas físicos e as bancas não saíram ilesos dessa.
Com seu marketing agressivo, grandes lojas de varejo on-line têm praticas
desenhadas pra eliminar a concorrência. Uma delas é o preço. Praticando valores bem abaixo de mercado e com suas políticas de descontos, elas atraem grande massa de público. Preço baixo é
muito bom pra quem quer adquirir, mas a longo prazo, conforme a concorrência
vai sumindo, vai massificando o monopólio e, pelo exemplo que a editora Abril
nos mostrou, monopólios não são bons. As bancas por sua vez não conseguem
responder à altura de tais ofensivas. Muitas delas estão presas no modelo de
consignação e não conseguem negociar com editoras preços mais baixos e nem
oferecer preços variados além dos de capa e somando a isso as mesmas estão
sofrendo com o problema de distribuição o que acarreta em menor oferta de
impressos. As bancas foram pegas de assalto e não se foi oferecido uma saída ao
modelo rígido de vendas no consignado, deixando as mesmas à mercê de todo o
movimento do e-commerce.
É de conhecimento de todos que estamos passando por uma
crise de cadeias produtivas, regrada com jogos de interesses hegemônicos e
muita concentração de renda. Passamos pelo desdobramento da crise de 2008
agravada pela crise sanitária com a cereja do bolo sendo a gestão desenhada
pelo neoliberalismo do governo de 2018 a 2022. Resultado de tudo isso: fome,
violência, morte. Nesse cenário estúpido e caótico qualquer negócio está a
mercê da ruína. A inflação veio com força fazendo o preço de tudo subir e, de
quebra, fazendo subir o preço dos impressos também. Os impressos que, antes, eram
artigos de preços acessíveis tornaram-se artigos de luxo de tão altos que os
preços estão. Luxo: acredito que essa tenha sido a escolha feita pelas editoras
como estratégia de vendas e justificar tal preço. Mas ainda que o luxo tenha
sido a escolha, ponderando a alta do preço de insumos, qualidade do material e
transporte há de se estranhar o preço dos impressos hoje em dia. Essa
estratégia do lucro se faz em mirar no público que ainda tem grana pra gastar,
mantendo a taxa de lucro das editoras independentes do número menor de vendas,
o impresso popular e de massa, com margem de lucro pequena, não existe mais. O
público habitual e frequentador de banca não tem renda suficiente pra ser
consumidor de banca hoje em dia. Mas aí, cria-se uma situação caótica pros
donos de banca: como atrair o público com renda suficiente pra adquirir o que a
banca tem a oferecer? (essa pergunta surge partindo da ideia de que as editoras
não vão praticar preços populares). É quase certo que a banca não seja lugar
atrativo pra esse público de “renda alta”. É provável que ele vá frequentar a
livraria nos shoppings a ir à banca da praça próximo de sua casa, isso porque
estou desconsiderando a grande possibilidade de essa pessoa efetuar a compra no
e-commerce. Em resumo: a crise atual fez com que o público que potencialmente
possa comprar em banca mudasse de perfil. O frequentador habitual não é mais o
público-alvo dessas editoras e os donos de banca estão fazendo verdadeiro
malabarismo pra atrair esse novo público e manter as vendas.
Os donos desses importantes estabelecimentos não estão
parados vendo o tempo passar e a ruína acontecer. Muitos deles se reuniram e
formaram uma associação, eles têm cobrado o poder público e já obtiveram
algumas conquistas. Muitos deles já se “reinventaram” e buscaram diversas
alternativas pra venda de seus materiais, inclusive plataformas de e-commerce.
Ganharam, recentemente, uma vitória legislativa tornando a banca patrimônio
imaterial da cidade de São Luís.
Apesar das conquistas, vou pegar um dado feito pelo
jornalista Thiago Bastos em publicação intitulada: Decadência: quantidade de
bancas em São Luis cai 45%, no jornal OESTADO mostra que entre 2017 e 2019, em
apenas dois anos, o número de bancas na cidade foi de 55 para 30! Esse é o
retrato medonho que temos nos deparado.